Como a IBM está usando o blockchain para mudar o mundo

A diretora geral da IBM Blockchain comenta as principais características da nova tecnologia — e por que ela é tão importante.

Uma em dez pessoas contrairá uma doença transmitida por alimento este ano. Esse fato é motivo de preocupação para os Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDCs) dos EUA e seus pares em outros países — e para Marie Wieck e sua equipe na IBM. Wieck é responsável pela estratégia global de boa parte dos trabalhos da IBM em torno dessa tecnologia emergente que, se descrita com a máxima simplicidade seria, segundo a executiva, uma base de dados compartilhada. Um dos usos dessa base de dados: indicar a procedência do alimento (ou seja, rastrear e informar a origem do item) para garantir a máxima segurança no fornecimento de alimentos.

“[O BLOCKCHAIN] TERÁ O MESMO EFEITO TRANSFORMADOR NOS PROCESSOS E TRANSAÇÕES COMERCIAIS QUE A INTERNET TEVE NA COMUNICAÇÃO.

— Marie Wieck, Diretora Geral, IBM Blockchain

Trabalhando com fornecedores e varejistas, a IBM desenvolveu uma plataforma de blockchain com potencial para armazenar as informações de todas as partes envolvidas na disponibilização de um alimento aos consumidores – do agricultor à embaladora até a distribuidora e a loja. “Quando você tem um problema com itens contaminados e está tentando proteger a saúde das pessoas, o blockchain ajuda a localizar e a eliminar esses itens rapidamente”, diz Wieck. A tecnologia já foi usada, em caráter de teste, para rastrear remessas de mangas orgânicas do México para uma grande cadeia varejista nos EUA, e baixou de pouco mais de seis dias para segundos o tempo médio necessário para rastrear a origem exata de um alimento.

O blockchain é a maior e mais recente revolução dessa empresa de 107 anos que ficou conhecida por suas calculadoras, computadores mainframe, impressoras e computadores pessoais antes de estrear o IBM Watson, um sistema de informática que usa aprendizado de máquina para responder perguntas, em 2011. “Considerando a escala e a rapidez da evolução tecnológica, qualquer empresa de tecnologia que queira sobreviver por 100 anos precisa se reinventar continuamente”, diz Wieck.

Foi isso que levou a IBM a explorar o blockchain como parte de uma prática contínua da companhia – estudar tecnologias emergentes que estarão disponíveis em cinco a dez anos. “Percebemos que ela seria uma excelente forma de compartilhar informações entre empresas e de oferecer um nível de transparência e confiança que não é possível com mecanismos normais hoje”, diz Wieck.

Não é uma base de dados comum

Vários fatores diferenciam o blockchain de outras bases de dados. Um deles é que a mesma versão da base de dados – idêntica até o último detalhe – é compartilhada por toda a rede das partes envolvidas. Isso significa que não há sequer uma fonte de falha para o dado que poderia deixá-lo vulnerável a um ataque cibernético ou outro tipo de colapso no sistema, diz Wieck. (Para pôr fim às preocupações de privacidade e segurança, os dados do blockchain são criptografados.) Porém, é possível que a diferença fundamental esteja na “imutabilidade” do blockchain. Isso significa que, ao contrário do que acontece com a maioria das bases de dados, que são atualizadas para criar a versão mais recente, o blockchain mantém um registro de todas as atualizações. “Tenho um colega que gosta de comparar essa característica ao ato de resolver palavras cruzadas com caneta”, diz Wieck. “Se você escrever ‘LUA’ e, em seguida, perceber que errou e escrever ‘SOL’ sobre a palavra original, ‘LUA’ não desaparecerá para dar lugar a ‘SOL’ – não há como fazer uma simples substituição.” Esse atributo – o histórico completo do dado – garante exatidão. E, no caso das mangas vindas do México, fornece informações a todos os envolvidos no processo, rapidamente.

“CONSIDERANDO QUE 90% DOS PRODUTOS FÍSICOS QUE CONSUMIMOS NO MUNDO CRUZARAM O OCEANO EM ALGUM MOMENTO DE SEU CICLO DE VIDA, ISSO PODE GERAR IMPACTOS SUBSTANCIAIS ATÉ NO PIB.”

— Marie Wieck, Diretora Geral, IBM Blockchain

O blockchain está sendo usada para várias finalidades por dezenas de setores, como testes de medicamentos, transações financeiras e históricos de alunos. Pesquisas da empresa de pesquisa global Gartner, porém, mostram que a maior oportunidade da tecnologia está no setor de produção e áreas relacionadas à cadeia de suprimentos. Isso explica o trabalho da IBM para criar soluções de blockchain para a dinamarquesa Maersk, a maior transportadora naval de contêineres do mundo. Segundo a IBM, cada contêiner estava associado a mais de 200 comunicações envolvendo o produtor, a transportadora e as autoridades portuárias – a maioria delas, em papel. A digitalização dessas comunicações no blockchain modernizará o processo, dará visibilidade em tempo real a informações como localização e outras condições e, em última análise, reduzirá o custo da remessa de um contêiner. “Considerando que 90% dos produtos físicos que consumimos no mundo cruzaram o oceano em algum momento de seu ciclo de vida, isso pode gerar impactos substanciais até no PIB”, diz Wieck.

Não há dúvida de que o impacto da tecnologia é vasto. “[O blockchain] terá o mesmo efeito transformador nos processos e transações comerciais que a internet teve na comunicação”, diz Wieck. E a IBM está determinada a tornar a tecnologia blockchain acessível a todos, incluindo programadores e desenvolvedores. “Temos até uma livre iniciativa acadêmica para oferecer acesso à nossa plataforma de blockchain a mais de 1.000 universidades, a fim de que elas possam ensinar as habilidades que esses novos tipos de rede e soluções requerem”, diz Wieck.

Na verdade, a maioria das pessoas nunca precisará saber que está usando um blockchain, diz a executiva. “Elas só saberão que é possível ver no celular se uma manga é ou não orgânica. Queremos que seja simples assim.”

Blockchain e FedEx: a próxima geração de transparência na remessa

A rede compartilhada do blockchain, ou base de dados (ou cadeia de eventos – também chamada de blocos –, respectivamente chain of events e blocks, em inglês, termos usados para formar o nome da tecnologia), consegue rastrear quase qualquer tipo de atividade empresarial, de transações financeiras a prontuários médicos e patentes. Um dos exemplos mais tangíveis é a remessa de mercadorias, onde o blockchain atua para reduzir riscos e criar eficiências de custo e tempo. “A FedEx se preparou há muito tempo para ser uma aliada de confiança no controle da custódia das mercadorias que passam por nossas redes”, diz Robert Carter, CIO e vice-presidente executivo de Serviços de Informação da FedEx. “O blockchain é ideal para eventos que ocorrem durante o transporte de itens de valor, seja um fármaco ou um produto da Louis Vuitton, situações em que é fundamental contar com uma cadeia de custódia confiável.”

Isso é especialmente verdade em remessas internacionais. “Na área aduaneira, acredito que chegaremos a um futuro em que todas as entradas aduaneiras estarão representadas em um blockchain – e essa vai ser a melhor forma de representar a procedência de um item”, diz Carter.

Como sócia-fundadora da Blockchain in Transport Alliance e Blockchain Research Institute, a FedEx reconhece a necessidade de toda a indústria adotar as tecnologias blockchain. “Muitos itens que passam pelas cadeias de suprimento são tocados por mais de uma transportadora,” diz Carter. “Então, a possibilidade de criar um blockchain com informações de transporte para as mercadorias movimentadas é realmente poderosa”.

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